Por que um blog.

Um teste de ancestralidade que fiz recentemente informou que tenho 34 % de origem italiana (sobre a qual ninguém nunca me falou), 23% de Ibérica, 18% da Europa Ocidental, 7% do Magrebe (região do Noroeste da África que inclui territórios do Marrocos, Tunísia, Argélia, e parte de Mali, Líbia, Mauritânia e da área disputada do Saara Ocidental), 5% de Basco, 4% dos Bálcãs, 3% do Leste Europeu, 3% de Judeus, menos de 2% da Arábia e do Egito, menos de 2% da Patagônia e menos de 2% do Sul da Ásia. A ser verdadeiro, isto comprovaria que, como bilhões de pessoas, fui gerado numa maravilhosa saga de milhares de anos. Não há de negar que sou – com orgulho e alegria – mestiço.

Nesse caminho até mim, inúmeras e longas viagens por desertos, glaciares, mares, oceanos e cordilheiras, de tribos, clãs, legiões com guerras, tréguas, pacificações, amasiamentos, migrações, buscas por refúgios, negociações, tendo diferentes religiões com seus deuses, santos e profetas e com muitos, mas muitos mesmo, debates e diálogos. Em idiomas que, muitos deles, nem mais existem. Isto ocorreu para que eu existisse, E, de diferentes formas, aconteceu com todas as pessoas que participam da humanidade.

Na minha infância, morando com meus pais e irmãos num casarão de meus avós em Recife, vi admirado a reunião que nele ocorria, nos almoços de domingo, em que todos os Figueiredo se reuniam em torno de duas mesas. No salão principal, onde ficava a maior delas, para cerca de vinte pessoas, e na qual se sentavam os mais velhos e convidados a barulheira era grande: sorrisos, falas e conversas em altos brados e discussões acaloradas. Era um misto de banquete, de assembleia e de comício. Sentia que não eram exigidos consensos e que tudo terminava bem. No outro domingo a mesma coisa acontecia. E penso que éramos felizes. Eu, com certeza, sim.

Na pré-adolescência e na adolescência, na casa de meus pais, escutava longas e acaloradas discussões de meu pai, oriundo de família conservadora, udenista, mas que se convertera ao getulismo, com meu irmão mais velho, admirador de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Meu irmão militava em organizações de juventude que compunham uma linha auxiliar do Partido Comunista. Falavam muito e, ambos, com sincera convicção. Ao final, beijavam-se e eram grandes amigos.

Fiz política estudantil na histórica Faculdade de Direito de Recife. Ali tudo se discutia. Principalmente, filosofia, economia e política. Lutei pelas reformas de base. Participei da Juventude Universitária Católica, exercitando o método de Ver-Julgar-Agir. Foi no ambiente de muita discussão que me tornei cidadão.

Depois, fui aluno dos seminários católicos de João Pessoa, Olinda e Lyon, na França. Participei de um ambiente livre para o debate. Vi nascer e se firmarem as Comunidades Eclesiais de Base, o Concílio Vaticano II e a Teologia da Libertação. Tudo que era humano tornou-se importante para mim. Progressivamente passei a ser um cidadão do mundo. E nada disso foi feito sem intermináveis conversas.

Tive a sorte de ser amigo de Dom Helder Câmara e de trabalhar com Paulo Freire na Campanha Nacional de Alfabetização. Ambos eram pessoas extraordinárias na arte de ouvir e de falar. Aprendi muito com eles. Sobretudo a aprender.

Minha vida profissional, como educador e como profissional da Extensão Rural Brasileira foi um rico aprendizado sobre as pessoas seus grupos e associações. E sobre mim mesmo. Isso só foi possível com muita discussão. Casei com uma excepcional mulher que tinha como profissão ser assistente social estimulava mulheres e homens do campo a serem donos de seu destino. Com ela aprendi a compreender como é difícil e necessário que eles e suas organizações sejam sujeitos de suas vidas.

Aposentado e envelhecido, octogenário, constatei que para continuar vivo precisava ouvir e falar. Tentava exercitar este ofício, dialogando com as pessoas que encontrava nos supermercados, bancos, postos de gasolina e com funcionários e vizinhos do condomínio onde morava. Com a pandemia do covid 19 tive de isolar-me. Restaram para mim os sábados ou domingos quando nos reuníamos, em torno da mesa minha esposa, minha filha mais velha, meu genro e um dos meus netos. Aí eu discorria sobre quase tudo, principalmente sobre minhas lembranças e sobre meus temores diante de um mundo que insiste em exterminar-se e onde a intolerância ante os que pensam e agem diferentemente é predominante.

Fui estimulado a entrar num grupo de WhatsApp composto por membros da família. Ótimo. Mas pouco a pouco, constatei que escrevia mensagens extraordinariamente longas, as quais, suponho, poucos tinham paciência de ler. E tinha de zelar para não expor tudo o que pensava porque isto poderia causar problemas para quem não concordava comigo e com isto, eventualmente, causar deserções do grupo. Um agravante é o fato de que sou o vice decano desta família com centenas de membros. E dos decanos é exigido, pela liturgia do cargo, não tocar em pontos nevrálgicos nem expor posições que possam causar ou acirrar muita discórdia.

Foi quando, numa dessas reuniões, alguém teve a ideia de um blog, que, a bem da verdade, não sei bem o que seja. Mas nele pretendo falar sobre o que julgo necessário e ouvir os que quiserem concordar, discordar ou acrescentar algo ao que penso. Sempre respeitando as divergências, sem raiva e sem ódio. Falar é preciso. Ouvir é necessário. Viver, nem tanto. Vamos ver se funciona.

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