O português não está “off”.

.Na última semana os jornais impressos, as emissoras de rádio, as redes de TV, os carros de som, pregões em centros de compras populares e as empresas de publicidade entupiram nossos ouvidos com supostas maravilhas da Black Friday. Já há alguns anos sinto-me profundamente incomodado ao ouvir e ler essa avalanche de palavras em inglês em nosso dia a dia. Eis o que penso:

Nada contra qualquer idioma, muito menos em relação à linguagem usada por Shakespeare, Charles Dickens, Edgar Allan Poe e John Lenon. Tenho orgulho e alegria pelo fato de meus filhos e netos entenderem e falarem o inglês, bem como, nesse vernáculo, cantarem belíssimas canções. Lembro-me que na minha infância e adolescência, durante os jogos de futebol que assistia em Recife, nos campos dos Aflitos ou na Ilha do Retiro, os torcedores usavam – inclusive eu – expressões como goalkeeper, becker, center half, center forward, corner, offside e hand, afinal, foram os britânicos que criaram esse jogo. Mas todas elas foram rapidamente aportuguesadas ou substituídas por vocábulos de nossa língua. Em Portugal, fenômeno semelhante ocorreu e goleiro, lá, é chamado de guarda-rede.

Tenho a impressão que agora a coisa é mais séria. Não percebo qualquer esforço para traduzir palavras como spoiler, podcast, hashtag, airfrayer, outlet e muitas outras. Mesmo palavras existentes em nosso idioma foram “anglicizadas” e passaram a ser halloween, delivery, takeaway, smartphone, the best, shopping, free, prime. Cuecas masculinas, com exceção da tradicional samba-canção, são denominadas slip ou boxer. Se tudo isso não bastasse, até amor, amigo, irmão estão virando love, friend e brother.

Quando fomos morar em Brasília, no início da década de 70, havia dois polos principais de vendas para os que se situavam da classe média para cima: o Conjunto Nacional, no centro do Plano Piloto, e o Centro Comercial Gilberto Salomão, no Lago Sul. Ambos ainda existem com as mesmas denominações. A partir de um certo momento, tudo o que se construiu, na Capital Federal e em várias cidades brasileiras com o mesmo objetivo, passou a chamar-se Shopping ou Mall.

Não deixemos que isso prossiga. Somos brasileiros e a nossa língua é o Português, idioma o qual, na Europa, Luiz de Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e José Saramago tão bem manejaram, e que, entre nós, foi e continua sendo instrumento de trabalho de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Darcy Ribeiro, Gonzaguinha, Ivan Lins, Chico Buarque, Caetano e Gil. O grande Fernando Pessoa, através de seu heterônimo Bernardo Soares, em sua obra intitulada “O Livro do Desassossego” declara enfaticamente que “minha pátria é a língua portuguesa”. Olavo Bilac, de forma elitista e perfeccionista própria dos parnasianos, exalta a última flor do lácio e sua beleza, embora lamente o uso inculto que dela se faz. Paulo Freire, ao contrário, voltando ao Brasil após sua longa permanência na África, dizia que o idioma português é bem maior do que o ensinado como língua culta em nosso país. Com isso concorda Caetano Veloso ao dizer que “minha pátria é minha língua”. No entanto, diz o poeta baiano, o essencial é que se ouça a Mangueira: “Fala Mangueira, fala!”.

Portanto, usemos e exijamos que se utilize o português. Que seja respeitada nossa identidade. Esta é uma forma de enfrentar a pasteurização que as grandes corporações internacionais, o capital financeiro e as mídias a eles vinculadas e/ou por elas financiadas, querem nos impor. Basta! Resistamos!

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